top of page

Carregar o peso sozinha é diferente de caminhar sozinha

  • há 11 horas
  • 3 min de leitura

Um conto sobre os passos que só a gente pode dar


A noite antes de partir para o cume do Island Peak foi curta e cheia de pensamentos.

Estava ansiosa. E empolgada. Minha jornada até ali tinha sido longa. Voar do Brasil até o Nepal, pegar um vôo de Kathmandu até a cidade de Lukla e caminhar a clássica rota de trekking até o Campo Base do Everest. E, ao invés de retornar para Lukla direto, resolvi incluir uma montanha de alta altitude, com trechos técnicos, o Imja Tse, ou Island Peak.

Não seria minha primeira montanha de alta altitude, mas a primeira vez subindo no Nepal e usando equipamentos técnicos de ascensão em corda. Deitei na barraca, olhei para o teto, respirei fundo e dormi por algumas horas, sonhando com o vento frio no rosto.

Despertei perto da meia-noite. Me equipei com tudo que precisava, saí da barraca para um noite clara e estrelada e tomei um café da manhã noturno, meu favorito. Com mais calorias na barriga, caminhei até meu guia e começamos a subir.


Essa viagem estava longe de ser uma expedição solo.

Fui com uma empresa brasileira, a Soul Outdoor, que por sua vez tinha o suporte logístico da empresa nepalesa 8K — uma das operadoras mais consolidadas do país. Tinha guia, tinha logística, tinha o grupo de brasileiros que fez o trekking ao Campo Base do Everest comigo e com meu pai.

Mas, de uma forma paradoxal, estava sozinha também - contava comigo, com minha experiência, com minha capacidade, com minha vontade e força interna.

Para o cume do Island Peak, eu fui como única cliente do Nima, meu guia de montanha. Apesar de ver vários outros alpinistas subindo, até formando filas nas partes mais técnicas das cordas fixas, o ritmo era meu. Durante a escalada, o caminho foi silencioso e focado em cada próximo desafio.

Há diversos momentos, nas paradas, em que a gente cruza com outros grupos e conhece outras pessoas que estão ali buscando superar seus próprios limites e ir além. Esse ímpeto de avançar nos conecta. Às vezes, as pessoas usam o verbo “conquistar” para determinada montanha, mas ali a única conquista possível é a tua, interna.

Nenhuma daquelas conquistas era solitária. A minha também não era.


Cume do Island Peak, Imja Tse - 6189 metros de altitude
Cume do Island Peak, Imja Tse - 6189 metros de altitude

O Nepal não é um lugar para expedições solitárias — e não estou falando só de logística.

As rotas de trekking são feitas para receber pessoas de todo o mundo. Pelo caminho clássico, você passa por cidades, vilas, monastérios. Encontra grupos de todas as nacionalidades, idiomas que você não reconhece, pessoas viajando sozinhas ou em grupo, cada uma carregando o próprio motivo para estar ali.

Fizemos amizades. Vibramos pelas conquistas de quem íamos conhecendo. Cada um no seu ritmo, cada um com os seus passinhos — mas todos caminhando juntos de alguma forma.

Essa é a parte que ninguém imagina quando pensa em montanhismo. Não é uma jornada de isolamento. É uma das experiências mais coletivas que já vivi.



Penso nisso quando alguém me diz que quer mudar de carreira mas ainda não se moveu.

Nas empresas, o suporte existe. Tem gestor que acredita em você, colega que indica, mentor que orienta, empresa que oferece oportunidade.

  • Mas se candidatar para uma vaga diferente — só você pode fazer.

  • Se voluntariar para um projeto novo — só você pode fazer.

  • Decidir buscar outra posição, outra empresa, outro caminho — só você pode fazer.

Ninguém carrega esse peso por você. E tudo bem pedir ajuda com a logística, com o mapa, com o equipamento. Tudo bem ter pessoas torcendo pelo seu retorno, no seu campo base.

Mas o passo — esse é seu.


Vista do Campo Base do Everest - 5364 metros
Vista do Campo Base do Everest - 5364 metros

Naquela noite, olhando para o teto da barraca, eu não imaginava tudo o que encontraria pela frente.

Respirei fundo, coloquei um pé na frente do outro, e subi — com o Nima do meu lado fui avançando, aprendendo movimentos novos e testando novas técnicas, passando por paisagens lindas, com cumes nevados por toda minha volta, com gretas impressionantes a poucos passos do caminho delimitado.

Cheguei no topo dos 6189 metros de altitude, desfrutei o visual colossal de estar rodeada por montanhas dos Himalaias. O Island Peak faz com que você realmente se sinta em uma ilha, no meio de diversas montanhas mais altas que a cercam. E cheguei de volta na base depois de 12 horas caminhando, um pouco queimada, com fome e frio, mas transformada, orgulhosa, fiel à minha capacidade e agradecida pela oportunidade.

E feliz com cada passo que só eu podia dar.

Qual é o passo que só você pode dar?



 
 
 

Comentários


bottom of page